Navegar pelo sistema de arte, enquanto um agente/profissional deste meio, exige o envolvimento em complexidade com relações de codependência e entendimento de operações financeiras globais.

A convite da Residency Unlimited (RU) fui assistir ao painel de discussão “A influência de plataformas online sobre a infraestrutura de mercados emergentes de arte” promovido em parceria com a Christie’s Education (a faculdade de uma das casas de leilões mais poderosas do mundo).

O estudo de caso que serviu de ponto de partida para o debate entre os participantes foi a experiência da plataforma russa InArt criada e gerida por Ksenia Podoynitsyna.

Tomando o cenário de um país emergente (no caso a Russia) os membros do painel – composto por: Noah Kupferman, diretor dos programas de mestrado da Christie’s Education; Stas Johnson-Chyzhykov, diretora do Consumer Marketplace na Artsy; Fanny Lakoubay, COO da Snark.Art; Elena Zavelev, fundadora da New Art Academy e Contemporary and Digital Art Fair; e Anna Evtiugina, parceira da RU – discutiram não só a influência de plataformas online sobre o mercado de arte mas também revelaram um ponto de vista interessante de quem olha o mercado por dentro.

Assim, como já era de se imaginar, a influência de sites de compra e venda de arte ainda é tímida tanto nos mercados emergentes quanto nos estabelecidos, porém todos concordaram que há sim a tendência de crescimento rápido e grande interesse por ocupar esse espaço.

Os desafios principais para que isso aconteça, o que aponta que seja só uma questão de tempo, são: infraestrutura, transparência e educação.

Sobre infraestrtura, ainda há o que se explorar em tecnologias que facilitem o acesso, cruzamentos e análise de dados sobre obras de arte disponíveis para venda no mundo. Se considerarmos que o sistema financeiro já caminhou muito nesse sentido, a ponto de algorítmos decidirem transações, pode-se entender que a tecnologia, pelo menos em parte, já está aí e que é uma questão de adaptação.

Quanto à transparência e à educação, daí realmente os desafios parecem maiores.

Transparência diz respeito a clareza das informações sobre as obras (preços e localização, principalmente). Tanto na Russia, como em vários outros cenários emergentes (ou seja, ainda não estabelecidos e, por isso, pouco seguros) existe uma parte das transações que não aparece. Isso implica em perda de dados, em fraca regulação do sistema, em flutuação de valores etc. Quem mais parece perder com essa falta de transparência é o acervo artístico em si. Ao que tudo indica quanto maior essa opacidade, maior é a invisibilidade de um pensamento, de um repertório cultural como um todo, uma menor representatividade global.

Já no que se refere à educação, falou-se muito em educar colecionadores mas também os artistas. Sim! Assim como você possivelmente levantou uma sobrancelha, eu também senti um pequeno calafrio quando isso veio à tona (já explico).

Imagem de um dos slides apresentados durante o painel de discussão mostrando os players de um sistema/mercado de arte.

Primeiro, falando de colecionismo, se no mundo todo o número de colecionadores ainda é pequeno frente à oferta, em países emergentes (a gente sabe) essa diferença ainda é mais dramática. Neste caso, um espaço online que possa fazer chegar as obras locais a compradores da China, por exemplo, é de interesse de galeristas como Podoynitsyna. Para a criadora da InArt, oferecer obras de arte contemporânea Russa ao mercado internacional é uma forma de aumentar não só suas vendas mas também o interesse dos colecionadores locais (russos).

Apesar de ainda ser necessário um número maior de pessoas interessadas em comprar arte para fazer desse sistema menos dependente dos 1%, vários membros do painel concordaram que,  por causa da internet (e de sites como Artnet e Artsy) há cada vez mais compradores super educados em arte contemporânea e em quem é “relevante” nesse mercado.

Agora, sobre a educação (falou-se a palavra treinamento) dos artistas o que foi colocado diz respeito ao preparo destes para tratar com o mercado. Comportamento, networking, brading etc. Todos concordaram que os artistas precisam estar melhor preparados para entender este sistema e não só a produção de sua obra.

Neste ponto, Fanny Lakoubay fez uma ressalva que, acho, reflete um pouco o que eu mesma diria: o artista precisa entender-se como marca (brand) mas não tem como fazer isso sozinho e por isso precisa de pares que o ajudem (outros players) como um galerista, um colecionador, uma faculdade… um parceiro “de dentro”que o ajude a operar e circular nesse sistema.

Eu falei disso num vídeo sobre “vender arte na internet”, mostrando que não há “receita do sucesso” mas ponderando exatamente o cenário comercial que vivemos hoje nas artes visuais contemporâneas.

Dá uma olhada:

Outro obstáculo, que ficou como um parênteses, foi a questão da taxação proibitiva praticada por alguns países (Brasil, por exemplo) que dificulta enormemente a circulação e comércio internacional de obras. É realmente urgente que se faça algo a respeito junto às autoridades federais neste sentido.

E somando a isso, comentou-se que só internacionalizar não basta. Investimentos locais e a prática do colecionismo local é muito importante tanto na autovalorização como na manutenção de um repertório artístico local que reflita a si mesmo e que potencialize transformações e aprendizados em casa.

Ser artista, a partir deste ponto de vista, é ser um player, um componente. Ouvindo falas de “quem é do mercado” sobre esse “artista profissional” fiquei pensando sobre o quanto é difícil seguir nessa carreira se se pensar apenas sobre o comércio. Os panelistas, eles mesmos comentaram sobre a perda do potencial criativo quando o “sucesso de mercado” bate à porta de um artista. “Por isso a gente procura outros talentos emergentes” foi mais ou menos o que resumiu Kupferman, tentando explicar em uma frase como é o fluxo de circulação de novos artistas neste mercado.

Eu sei que pra quem é artista, ou pra maioria de nós artistas, essa realidade é um tanto incômoda e, às vezes até sufocante. Por isso, sou da opinião de que a “saída” é focar com mais energia na produção mas sem perder de vista a convivência respeitosa porém crítica com o mercado. Deixar-se dominar, ser levado pelas tendências e demandas de consumo pode ser interessante para alguns, mas não acredito que seja interessante para a maioria dos artistas visuais.

Foi dito por um dos integrantes da mesa, em uma risada nervosa, falando de branding e treinamento dos artistas, que “às vezes o artista nem precisa ser bom, ter uma boa obra. Basta saber se relacionar bem.”

Indo muito além da discussão sobre a influência dos negócios online, esse evento rendeu bons insights e confirmou certas considerações que tenho a respeito.

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