Amor para um cotidiano revolucionário

Partindo de um recorte autobiográfico vinculado à vida diária, a artista malauiana Billie Zangewa se conecta à temáticas universais. Através do que chama de “feminismo diário”, entrelaça narrativas em retratos afetuosos de cenas ordinárias tidas como desinteressantes ao mesmo tempo em que visibiliza lutas diárias. Incluir a si mesma (uma mulher africana), assim como partir do cotidiano e do doméstico, é uma escolha política para trabalhar questões de identidade que desafiam estereótipos de gênero, raça e classe.

Ma Vie en Rose, 2015 (foto: blank projects)
Cold Shower, 2019 (foto: Templon)

Além de celebrar experiências privadas de uma forma pública e de confrontar a objetificação do corpo feminino negro (ao expor a si mesma em cenas cotidianas comuns), Zangewa também compartilha um processo íntimo de autoconhecimento. Observe a sensibilidade de não esconder a fragilidade nem a imprecisão do processo manual. Ela escolhe a costura (uma tradição feminina) e expõe a imperfeição do acabamento, as várias camadas de tecido e, por vezes, o inacabado da própria tapeçaria feita em seda (!). Percebe também uma possível temporalidade na escolha do material? Não só pelos diferentes tons do tecido, mas a seda também está relacionada a um sentido de transformação animal.

Cold Shower na exposição Soldier of love (foto: Templon)

Trago algumas de suas obras para conversarmos depois de visitar recentemente a exposição Soldier of love cujo título imediatamente me fez lembrar da bell hooks. Quando questionada, Zangewa justificou que o amor, universal e pessoal, é algo pelo qual devemos lutar nessa época em que infligimos tanta dor e sofrimento uns aos outros. na falta de uma ética do amor, como propõe hooks, somos submetidos a sistemas de dominação sustentados na violência. É preciso resgatarmos o amor como um projeto político para promovermos uma mudança estrutural que ultrapasse a esfera da individualidade e viabilize a sobrevivência em comunidade. É visível o quanto Zangewa entende o amor em seu poder transformador para alcançarmos uma sociedade libertária, concorda? Como você pensa o amor numa dimensão cotidiana e política?

Imagem destacada: Bedtime Story, 2020 (foto: Templon)