Por Mônica Lóss

Minha prática artística tem se desenvolvido através de ciclos, momentos que consigo produzir intensamente, intercalados a outros de mais preparação (principalmente do material), em que tudo acontece mais lentamente, com uma suavidade que inquieta já que tem-se a sensação de inércia.
Não falarei mais sobre culpa, já que tenho aprendido a respeitar o desenvolvimento da minha prática artística e percebê-la como um ato que está em constante processo não somente no momento intenso de produção plástica e sim, como uma experiência articulada a tudo ao meu redor, que não pode ser medida ou quantificada pelo “tempo” e sim, muito mais pela intensidade das vivências e experiências…
Essa última semana foi atribulada, de poucas horas dedicadas ao fazer e mais horas dedicadas ao pensar o processo e sobre o que eu produzi até agora, decorrente disso, algumas questões começaram a pipocar: em que tudo isso que eu tenho produzido irá se tornar? O que esses trabalho querem ser afinal de contas? Como dispô-los no ambiente? As pessoas poderão interagir? Que tipo de situações eu posso criar para dar a esses trabalhos mais potência e força?
Estas questões são somente um exemplo das muitas outras que derivam justamente de uma busca por qualificar meu pensamento, e “pensar o processo” com comprometimento, aprofundando relações entre meu fazer e o repertório, escrevendo e elaborado, às vezes só para mim mesmo, quais os caminhos e direções que me trouxeram até aquele ponto. Nesta minha busca, entendo que não cabe mais o pensamento à deriva… sabe aquele caso de ficar olhando pro teto esperando que alguma solução caia do céu? Pois é, particularmente, descobri já há algum tempo que esse “modelo” de pensar não funciona para mim.
Então, quando me refiro a “pensar o processo” significa na verdade uma parte do trabalho tão intenso e comprometido quanto é o próprio fazer plástico. E pensando por este ângulo posso considerar que o meu processo artístico está baseado em um tripé: pensar-fazer-pensar, já que me dou conta que existe um pensar prévio, uma ideia inicial que de alguma forma norteia minhas ações práticas.
Esse pensar é um pouco diferente do segundo pensar, pois é um momento de diálogo mais íntimo, de escritas mais livres, de esboços, de anotações rápidas, onde as ideias vão sendo gestadas sem contornos muito definidos e assim sendo, acho que este momento pode ser considerado um pensar/criar…
Por exemplo, a série em papel maché e fibras têxteis vem sendo desenvolvida já a alguns meses. Esta pesquisa parte do interesse, que de certa maneira tem se repetido em outros projetos, que o comprometimento em utilizar materiais de descarte que eu produzo no meu estúdio, as sobras e restos de fibras e papéis, dito de outro modo, o meu próprio lixo. Mas não somente com ele, também tem um elemento que tenho explorado que é a utilização de papéis guardados, cartas, desenhos, cadernos… (ideia que precisa ser aprofundada) uma variedade de materiais que sim, mais cedo ou mais tarde, acabaria/acabará no lixo, e que interceptado por esse comprometimento, ganha outro destino e também um outro sentido de existência.
Explorar o papel maché nas construções de objetos têxteis é motivada pela busca em explorar aspectos diferentes que os materiais podem proporcionar como texturas, resistências, volumes… Iniciei a investigação por peças ovaladas que eu denominei gamelas, por assemelharem-se ao formato das tradicionais gamelas de madeira muito utilizadas em diferentes regiões do Brasil e sobretudo, na região de onde eu sou proveniente, do RS.


Minha relação com esta investigação vem se tornando mais intensa. Sinto que à medida que as inúmeras possibilidades plásticas vão aguçando minha curiosidade, expandir as relações e experiências que o contato com essas peças possa provocar me estimula ainda mais. Também, ao que tange “pensar o processo” ainda há um caminho longo em que muitas questões precisam ser feitas, pois afinal, como essas peças existirão no espaço? Que tipo de habitat elas querem ocupar… e seguimos…
Ainda dentro da questão do “pensar o processo” algo bem interessante surgiu decorrente de uma nova série em que eu estou trabalhando, a qual denomino (por enquanto) “Experimental”. Esta série de trabalhos está sendo composta por tecelagens descontruídas, sem nenhum acabamento, feitas de maneira muito rápida, no estilo “malfeitona” mesmo.


Até aqui estaria tudo bem, porém “pensar o processo” sobre essa série ativou um alerta que considerei importante. De um modo geral, primo muito pelo “bem feito”, e isso tem a ver com vários fatores que envolvem a realização de cada trabalho, por que em geral todos eles demandam tempo, então crio um vínculo, uma relação com cada peça que eu produzo, é quase como criar um “companheiro” que está comigo por algum tempo e devido a essa longa convivência, e da falta de pressa que surge essa estética mais elaborada.
As peças que eu havia produzido até então, foram peças em tecelagem e crochê em que primei ainda mais por uma boa execução, não somente visando a questão estética de cada peça, mas também, a questão da “durabilidade”. Quero que elas durem e sejam resistentes, quero que elas possam ser manipuladas, quero que elas sejam agradáveis ao toque e ao olhar, quero que elas sejam belas e delicadas, quero que elas existam de um jeito específico, de um jeito que parece ser o “ideal”…
O que tanto “querer” quer na verdade? O que estes quereres me dizem/revelam/questionam? Será que a busca pelo “bem feito”, “bem acabado”, com uma estética agradável, suave e delicada podem ser fatores articulados a problemáticas mais profundas?
Deparar-me com o potencial de algo que representa o contrário de todo o meu “querer” e me empurra para outro extremo, o de explorar e produzir coisas que não precisam ser belas, nem acabadas |e do/para o lar…| podem ser uma maneira muito mais potente de refletir sobre a estética da vida atual e mais, sobre as narrativas do feminino no mundo atual. Questão que em nossos tempos quase pareceu superada, é na verdade uma discussão extremamente atual e que necessita ser tratada em todos os âmbitos da sociedade.
Os fazeres manuais tais como o tricô, crochê, bordado etc., estiveram por muito tempo atrelados a construção do feminino e aos espaços que a mulher podia ocupar no mundo, relacionados principalmente a vida privada, ao cuidado da casa e dos demais membros da família, a reprodução (afazeres domésticos), à intuição e a atividades que não exigiam esforço intelectual, enquanto ao homem se destinavam a outra face destas relações, como o púbico, a produção, a razão, o intelecto, e assim por diante. Foram repudiados e negados pelo movimento feminista na segunda metade do Século XX, que viam nestas atividades uma forma de dominação e aprisionamento das mulheres.
Hoje, percebo que as discussões em torno aos fazeres manuais e como eles aparecem na arte são múltiplas, parecem não respeitar nenhuma regra… “tudo pode” e todos podem criar utilizando qualquer suporte… e o que parece contar é justamente a maneira como nos posicionamos e nos articulamos com as questões que surgem no embate entre o fazer manual e sua relação com o feminino.
Mas como produzir algo que realmente possa contribuir e acrescentar com as discussões em torno as questões do feminino nos nossos tempos?
Será que eu estou no caminho? O que eu estou fazendo é relevante? Impactará a vida de alguém? Conseguirei gerar alguma provocação com o que eu faço?????
Não tenho respostas, e talvez persegui-las será o combustível para minha jornada como artista neste mundo… Mas dei-me conta que seguir produzindo peças repletas dos meus “quereres” engessa a minha prática, cria uma espécie de comodismo e uma segurança que não agrega e sim, delimita e define. Não preciso negá-las, mas dar-me conta disso me possibilita criar outra relação com o meu fazer… Ainda há muito que “pensar o processo… Já que o dar-se conta foi somente o primeiro passo…
O jeito é seguir…

Mônica Lóss
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