Um varal de experiências

Como você completaria a frase “Como mulher o que mais detesto da cidade é”? Essa foi a pergunta que a artista mexicana Mónica Mayer (1954) fez a cerca de 800 mulheres em 1978. Realizada pela primeira vez para o Salón 77-78 Nuevas Tendencias, El Tendedero é uma obra fundamental dentro da arte feminista latino-americana e vem sendo reativada desde então em diferentes ocasiões e contextos.

El Tendedero, 1978, foto Mónica Mayer

Naquele ano, depois de sair as ruas e obter respostas que em sua maioria giraram em torno da violência sexual nas ruas e transportes públicos (momento em que ainda não se falava de assédio), Mayer instalou os pequenos papéis cor de rosa presos num varal coletivo no espaço expositivo do Museu de Arte Moderno da Cidade do México. Imagine a surpresa da artista que durante a exposição outras mulheres tenham se sentido mobilizadas a também agregarem suas experiências (a obra originalmente não havia sido pensada para que a participação prosseguisse nesse espaço).

El Tendedero, 1978, foto Victor Lerma

Essa obra, colaborativa e processual, não nos oferece respostas, mas abre espaço para dialogarmos sobre a violência que vivem as mulheres no espaço público, nos permite refletir sobre as possibilidades de protesto e denúncia a partir da arte e a capacidade desta nos provocar reflexões críticas e nos envolver, inclusive corporalmente, a partir de nossas memórias.

Mayer, uma das grandes referências em arte feminista mexicana desde a década de 70, ao escolher o varal como suporte desloca um dos símbolos de uma atividade cotidiana tradicionalmente ligada às mulheres do espaço doméstico (onde “estivemos” nos três últimos textos) ao espaço público. Construída por múltiplas vozes, El Tendedero fala de uma experiência feminina ao mesmo tempo individual e coletiva e nutre uma presença feminina ativa num território tradicionalmente masculino.

El Tendedero, 1978, foto Victor Lerma

Você também lembrou da frase “o pessoal é político”? Esse “secar los trapitos al sol”, como aprendi com Georgina Gluzman (professora e pesquisadora em história da arte), é um dos motores da luta feminista: cura feridas individuais a partir do entendimento de que são problemas coletivos e inclusive sistêmicos dentro do patriarcado.

Será que hoje e partindo do nosso contexto as nossas respostas seriam diferentes? Na exposição “Si tiene dudas… pregunte: Una exposición retrocolectiva” sobre a artista no Museo Universitario de Arte Contemporáneo (MUAC) na Cidade do México, em 2016, mais de 8 mil respostas foram dadas às perguntas: quando foi a primeira vez que te assediaram? Qual é sua experiência de assédio mais recente? O que você fez ou o que faria contra o assédio? 

El Tendedero  é uma peça viva, pulsante e 42 anos depois de sua primeira apresentação, provoca reflexões ainda necessárias. Sua potência é tamanha que além de ter sido reativado pela própria artista (aqui mencionei duas ocasiões, mas houveram muitas outras), a obra também foi replicada (às vezes apenas como documentação) por outrxs comunidades de professorxs, ativistas e artistas com a sua colaboração. Poderíamos pensar nessa instalação participativa e efêmera como um arquivo que de forma orgânica vai crescendo e se desdobrando em outras experiências?

Além de achar muito emocionante como essa obra ecoa (e muito sintomático que levemos tantos anos falando dos mesmos temas), bonito foi encontrar durante minha pesquisa uma reflexão da própria artista sobre a possibilidade de transformação do El Tendedero em La Tendedera e preenchê-la não com histórias de dor, mas com as histórias de como nos defendemos, as estratégias com as quais implementamos as mudanças conquistadas e nossos desejos. Que estejamos conscientes de nossas conquistas e da força das nossas lutas e que criemos cada vez mais espaços para que ecoem as nossas vozes.

Imagem destacada: Mónica Mayer, El Tendedero, 2016, MUAC, foto: Oliver Santana