Vórtex 4, uma ficção lunar

A artista Maria do Carmo Verdi, conversou conosco por videoconferência e compartilhou sua trajetória como artista e as diversas linguagens e experiências que permeiam sua pesquisa poética. Ela nos contou também, como foi participar da mostra Utopias e Distopias Atmosféricas, primeira exposição digital do Clube da Uncool Artist, com o trabalho “Vórtex 4” com 90 pinturas 10,4×14,8cm (guache sobre papel Hahnemühle) distribuído em 4 estojos de alumínio e 2 vídeos de animaçãoConfira!  

Sobre a artista  

Maria do Carmo nasceu no Rio Grande do Sul, em Caxias do Sul. Filha de professora de desenho, sempre teve diversos materiais disponíveis e, ainda criança, se apaixonou pelas artes. Sua primeira formação foi em Artes Plásticas, especializando-se em gravura e pintura. “A minha formação na época estava muito baseada na prática e também na repetição, na insistência. A minha escola foi uma escola bastante tradicional, até porque, naquela época não tinha internet e o Rio Grande do Sul era um estado mais periférico. Hoje morando em São Paulo há 30 anos eu vejo a diferença de formação que tiveram as pessoas da minha geração que estudaram aqui e a minha lá.” 

[UA]Como foi a experiência de desenvolver um trabalho a partir de um tema em comum? 

[MC]Trabalhei uma paisagem para a mostra Utopias e Distopias Atmosféricas. É um tema que eu iniciei em 1984. Eu sei que foi em 1984 porque é essa paisagem que eu trago na minha pintura desde sempre, ela foi resultado de uma experiência que eu tive durante uma viagem.  

Nós [família] fizemos a travessia na Cordilheira dos Andes, nunca tinha tido essa experiência de vivenciar uma paisagem com muitas rochas, andina. Todo aquele universo de luz e forma que eu tive acesso naquele momento, me trouxe uma imagem de uma paisagem ficcional. Parecia que nada daquilo era verdade. Eu trouxe essa sensação, essa impressão, para o ateliê e comecei a fazer uma série de exercícios de organização de formas em função dessa experiência. Eu tenho, inclusive, todos esses exercícios, eu nunca me desfiz deles.  

Eram pequenos cartões, algo que lembra até análise combinatória, você vai usando determinados elementos e recompondo os mesmos elementos de formas diferentes, com isso fui aos poucos construindo um repertório. Um repertório que tem em seu DNA a paisagem dessa experiência que tive.. Até hoje essas imagens para meus trabalhos atuais, então, quando me conectei com o tema “Utopias e Distopias Atmosféricas”, vi que é algo que eu venho trabalhando há muito tempo, só que não exatamente com a abordagem proposta, mas com outras que me traziam esse mesmo conceito, de estar num lugar (eu não sei muito definir distopia com outras palavras que não a própria, risos) que cause esse estranhamento e essa sensação.  

Inclusive, esse trabalho que eu fiz para a exposição, ele está diretamente ligado a sequência de trabalhos de pinturas que eu venho desenvolvendo nesse último período. Esse período começou em novembro passado (2019), porque entre 2015 e 2018 eu fiz uma evolução – eu digo evolução porque para mim pessoalmente foi uma evolução – de começar a utilizar outros materiais para a solução plástica da pintura até chegar em propostas instalavas. Ano passado eu fiz três instalações, foram para duas exposições individuais grandes, uma no MAB (Museu de Blumenau) outra em Caxias. Eu vinha com essa coisa de instalação, fiz esses trabalhos todos e no final do ano passado eu disse: “não, eu tenho que dar uma recolhida, vou voltar para a pintura, voltei, retomei a questão da paisagem de uma outra maneira e vinha desenvolvendo esse trabalho desde novembro passado. O tema da exposição se encaixou perfeitamente nessa pesquisa. 

[UA] A obra trata também da sua experiência durante o período de isolamento, desse dia a dia. A gente percebe também o volume, não é à toa que são noventa pinturas de pequeno formato, você pode falar sobre como você enxerga essa relação de volume do seu trabalho, dessa quantidade, com a vivência da pandemia? 

[MC] Primeiramente eu nunca fui uma pessoa contemplativa, sempre fui super prática, apesar de adorar arte, poesia, mas assim, essa coisa de olhar pela janela e ver a lua, ficar observando fases da lua, era uma coisa absolutamente alheia ao meu dia a dia.  

Com a pandemia, fazendo as coisas dentro de casa, passei a fazer muitas coisas que nunca fazia, uma delas era ficar na frente da pia e olhar pela janela. Aí comecei a observar as coisas da natureza, não só a lua mas também outros elementos, como eu não podíamos sair, fiquei observando tudo isso. A lua já existia no trabalho, mas ainda não tinha estabelecido um paralelo que é clássico: a passagem do tempo. A partir daí resolvi trabalhar as fases da lua em uma primeira pintura. 

Entrei de vez na pesquisa e fiz uma série de vinte e três pinturas representando todas as fases da lua. Quando eu fiz essas 23 pinturas, percebi que elas não representavam simplesmente as fases da lua porque o ponto de vista era muito específico. É o ponto de vista de quem está no meio do olho de um furacão. Qual furacão? Um furacão, aquela coisa incontrolável que está em torno e que não te permite sair.  

Então, você pode fazer um paralelo direto com a pandemia. E não só com ela, o furacão é um elemento que está no meu trabalho, entrou antes da pandemia, mas era com uma conotação mais ligada as questões políticas, esse governo ensandecido do Bolsonaro (presidente do Brasil em 2021), para mim parecia tudo um furacão e eu estava trabalhando esse tema. Mas, não desse ponto de vista, não como se o observador estivesse no meio do olho do furacão e dali ele visse a placidez absoluta do cosmos 

Percebi também que essas pinturas são framesentão fiz a primeira animação. Eu tinha terminado esse trabalho quando veio o convite da exposição, aí eu penseié isso!. Estava querendo mesmo levar esse trabalho e a animação para uma outra escala. Quer dizer, essa repetição, esse muito é justamente o tempo enorme que a gente está passando nessa condição. Para o trabalho, escolhi o período do dia 13 de março, que é o dia que eu deixei meu ateliê no centro, até o último dia de agosto. É só um parêntese no meio do que estamos vivendo, é o tempo das luas que foram representadas aí no Vortez 4.  

Vórtex 4 porque já tem outros três vórtex antes. 

[UA] Maria, esqueci de perguntar no início, qual sua idade? 

[MC] 62.  

[UA]Jurava que estava na casa dos 50! 

[MC] Não! Eu vi o homem descer na lua. Então isso, vamos dizer, essa paisagem lunar, de criança com 10 anos assistindo aquela coisa absolutamente fantástica que foi o homem descer na lua somado ao entorno daquilo, que foi todo um movimento mundial de esperança no que se refere a um futuro com coisas incríveis, maravilhosas. A gente via desde os desenhos animados até as conversas de família em final de semana e isso é uma das coisas que nutre o meu trabalho até hoje. Isso me leva para essa paisagem ficcional, porque a gente viveu muito a ficção, no nosso dia-a-dia nesse período e eu tenho certeza que está no DNA, se existe isso, da minha obra inteira. 

_________________________ 

A mostra Utopias e Distopias Atmosféricas é primeira exposição do Clube da Uncool Artist. É uma experiência digital-poética que visa arrecadar verba que será́ revertida em bolsas integrais para novos participantes de nosso programa de formação (ILAP), 50% do valor das obras é destinado ao artista e 50% para as bolsas.  

Conheça o Clube da Uncool Artist clicando aqui