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Marina Quintanilha Ribeiro

b., lives and works in São Paulo, Brazil

Marina Quintanilha (São Paulo, 1979) é uma artista transmídia que transita entre a animação, o cinema, o desenho e a pintura. Premiada em 2014 pelo festival de documentários É Tudo Verdade com seu curta Borscht, Uma Receita Russa, ela usa recursos de animação e pintura em seus documentários, revelando não somente os fatos da realidade através da captura de imagens, mas também estimulando a imaginação do espectador com outros tipos de imagens —fotos, desenhos e composições — em movimento. Na pintura o procedimento é o inverso: as telas flagram frames de cenas cotidianas de sabor documental que levam o espectador a construir uma narrativa em torno da imagem.

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Aos 20 anos de idade eu li numa revista científica uma manchete: Cientistas descobrem que tempo é uma substância. Foi quando tive minha primeira crise de ansiedade. Nunca li essa matéria, mas desde lá o tempo é uma questão potente nos meus trabalhos.  Talvez por ser também animadora e passar grande parte do meu dia olhando para uma timeline, faz com que o passado, o presente e o futuro sejam questões latentes na minha vida. Passo a maior parte dela, esculpindo o tempo, como diz Tarkovski no seu livro sobre a arte de fazer cinema. 

Quando completei 30 anos, fiz um Atlas Mnemosyne da minha vida. Um painel de 30 fotos, uma para cada ano vivido. Observando esse painel, tive a dimensão da quantidade de tempo que havia vivido até então. O passado estava muito perto, e o fim também não tinha tanta distância. Um terço da minha provável existência já havia se passado. (Isso se tudo desse certo). Depois dessa constatação, tive vontade de fazer gráficos de ciclos, sentimentos, traumas e analisar minha vida assim como analisamos a jornada do herói de Joseph Campbell em um roteiro de filme. Só não o fiz porque achei meio patológico e narcisista, e acabei só levando essa impressão verbalmente para o meu analista, para ver se Lacan me ajudava com isso. Mas não escapo dessa sensação de que minha vida é uma narrativa que conto para mim mesma. E isso se reflete nas minhas produções.

Penso através de imagens. Fui entender minha mãe quando fiz um curta sobre minha família russa. Olhando-a através das câmeras, pude entender coisas que nenhuma análise conseguiu fazer por mim. Só consigo compreender minha vida, quando a vejo de fora, como uma espectadora. Por isso sou tão autobiográfica. Ao contrário do que possa parecer, estou me olhando de fora, e não me mostrando para o outro.

A minha pintura reflete esse movimento. Sou eu olhando para mim mesma. O corpo que eu habito e os objetos com os quais me relaciono. Quando estou sozinha o sentimento de existir é completo. E a liberdade é plena. A fotografia capta esse instante e paralisa o tempo. Em seguida, para realizar o processo da pintura, tenho que desmembrar a imagem em cores e formas às últimas consequências, levando a reflexão para além do conteúdo simbólico, agora, no tempo da pintura. A imagem fotográfica se desmaterializa como numa máquina do tempo, e se transporta decodificada para uma tela, trazendo, além daquele instante figurativo, detalhes e traços expressivos que também carregam significados formais.

Além do tempo interior da figura retratada e da viagem no tempo da própria desmaterialização da fotografia em pintura, também é possível ver no meu trabalho o tempo histórico.  Hoje em dia a mulher encontrou a sua voz nas redes sociais e o tema feminino está em voga. Estamos falando sobre as mulheres como nunca antes foi falado. Por isso, a mulher como sujeito, a self, a intimidade exposta das minhas pinturas, também pode ser considerado um tema do nosso tempo presente na minha obra.

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Artworks / Obras