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Exposição imersiva sobre a vida e obra de Laura Alvim

28 SET – 13 NOV, 2022
13H-20H

CCLA
AV VIEIRA SOUTO, 176, IPANEMA 
RIO DE JANEIRO / RJ

POR UM TETO TODO NOSSO

Em 1971, Linda Nochlin escreve um texto intitulado “Por que não houve grandes artistas mulheres?’’. Nele, a autora nos coloca diante dos limites relacionados à autoria e à estrutura social que dificultam a inserção das mulheres no campo artístico. Em discursos recorrentes no senso comum, e apoiados em expectativas quanto à sensibilidade e ao que seria identificado com uma dada feminilidade, a dificuldade de inserção de mulheres no campo artístico teria relação com as especificidades dashabilidades de mulheres, que não seriam reconhecidas pela sociedade enquanto excepcionais. A autora nos alerta do perigo deste tipo de análise, pois nossa pergunta é apenas a ponta de um iceberg queenvolve a reprodução da desigualdade na sociedade e do lugar nela ocupado pela mulher.

Ao nos aproximarmos da história de Laura Alvim, uma e outra vez, ouvimos sobre sua beleza, seu desejo e sobre dificuldade de ser atriz no contexto social no qual se inseria. Sua biografia é, constantemente, unida às histórias de seus importantes familiares – pai e avô – que, à sua maneira revolucionaram campos de conhecimento e fizeram propagar críticas ao estado das coisas. Laura é vista como uma mulher excêntrica,frustrada por não ser atriz, que causa paixões por onde circula e que, após problemas de pele, se confina dentro desta casa. Nesta comum narrativa, ela parece, muitas vezes, esmorecida diante da dificuldade e impossibilidade de inserção no sistema artístico.

Ao olharmos para o espaço que nos cerca e que, há mais de 35 anos, resiste como um espaço de cultura na cidade do Rio de Janeiro,nos perguntamos: não seria necessário contarmos outra narrativa? Por que contar a história de uma mulher a partir da história dos homens que a cercam? Não seria Laura Alvim apenas uma mulher com um grande desejo de construir uma sociedade no qual a arte e a cultura teriam outro espaço? Não seria Laura Alvim uma mulher que lutou, até o fim da sua vida, para construir um espaço de experiência e acolhimento para o setor artístico dentro de sua própria casa? Não seria ela, com toda agência que caberia em alguém de sua classe e contexto, que abriu mão e suspendeu as expectativas sociais apriorísticas em torno de si e que, de certa forma, nos disse: não deve haver limites para ficção, imaginação e o desejo de transformação da sociedade? Laura lutou. Ela foi também uma mulher.

No circuito instalativo desta exposição, Laura Alvim e o espaço cultural em si são tratados a partir dos diversos ‘também’ que os compõem: Laura foi também mulher, também do teatro, também filha de importante cientista, também visionária, também muito preocupada com os migrantes (…); a Casa de Cultura é também um espaço do audiovisual, também já foi palco para importantes festivais de música e de teatro, também já abrigou exposições de grandes artistas (….). O ‘também’ se reflete na própria arquitetura do espaço: não há um único estilo, e a sobreposição de tempos no espaço é clara ao visitante atento.

Para o projeto “35 Anos de Laura”, um coletivo-comunidade de artistas pan-americanos trabalhou por seis meses, em intensa colaboração, no desenvolvimento poético do circuito imersivo instalado na Casa de Cultura. A proposta de trabalho consistiu na suspensão deuma ideia de autoria individual: as instalações funcionam como cenas em peças de teatro nas quais conseguimos identificar atos performáticos eassinaturas, que, imediatamente, se dissolvem em nome de uma cena na qual o protagonismo é compartilhado, inclusive pelo público visitante- espectador-autor. Não há dentro e nem fora, os espelhos constroem um espaço entre ao qual todos são convidados, junto à cidade, a participar.

Nosso pressuposto é de que não é possível revisitar e ficcionalizar a história de qualquer mulher sem considerar a dimensão da produção e reprodução coletiva. A Casa de Cultura Laura Alvim foi um projeto que se construiu por uma crença compartilhada acerca da necessidade de se construir um outro mundo. As coisas animadas, os reflexos, as memórias fragmentadas, os móveis deslocados e objetos do acervo da casa que compõem as várias instalações da mostra são guardiões, alimento, dispositivos de imersão para a construção de outras ficções. O convite da mostra é de que repensemos a nossa percepção do mundo e habitemos o “também”, deixando de lado o binarismo e polarização que marcam nossa experiência contemporânea, e de que possamos construir umaoutra sociedade, na qual as instituições culturais e artísticas tenham cada vez maior centralidade.

FOR A CEILING OF OUR OWN

In 1971, Linda Nochlin wrote a text entitled “Why Have There Been No Great Women Artists?”. In it, the author confronts us with the limits related to authorship and the social structure that make it difficult for women to enter the artistic field. In common sense discoursessupported by expectations regarding sensitivity and what would be identified with certain femininity, the difficulty of inserting women into the artistic field would be related to the specificities of women’sabilities, which society would not recognize as exceptional. The author warns us of the danger of this type of analysis, as our question is just the tip of an iceberg that involves the reproduction of inequality in society and the place women occupy in it.

As we approach Laura Alvim’s story, once and again, we hear about her beauty, her desire, and the difficulty of being an actress in the social context in which she was inserted. Her biography is constantly linked to the stories of her important family members – father and grandfather – who, in their own way, revolutionized their fields of knowledge and propagated criticism of the status quo. Laura is seen as an eccentric woman, frustrated by not being an actress, the cause of passion wherever she goes, and who, after skin problems, confines herself inside this house. In this standard narrative, she often seems weakened by the difficulty and the impossibility of entering the artistic establishment.

When we look at the space that surrounds us and that, for more than 35 years, has resisted as a space of culture in the city of Rio
de Janeiro, we ask ourselves: shouldn’t we tell another story? Why tell a woman’s story from the stories of the men around her? Was Laura Alvim not just a woman with a great desire to build a society where arts and culture would have another space? Was Laura Alvim not a woman who fought, until the end of her life, to build a space of experience and reception for the artistic sector inside her own home? Was she not someone who, with the agency bestowed upon her by her class and context, gave up and suspended the a priori social expectations around her and who, in a way, told us: there should be no limits to fiction, imagination, and the desire to transform society? Laura struggled. She was also a woman.

In the installation circuit of this exhibition, Laura Alvim and the cultural center itself are treated from the different ‘alsos’ thatcompose them: Laura was also a woman, also from the theater, also the daughter of an important scientist, also a visionary, also very concerned with migrants (…); the cultural center is also an audiovisual space, it has also been the stage for important music and theater festivals, it has also hosted exhibitions by great artists (…). The ‘also’ is reflected in the architecture of the space itself: there is no singular style. The overlapping of times in space is clear to the attentive visitor.

For the project “35 Years of Laura”, a collective-community of Pan-American artists worked for six months, in intense collaboration, on the poetic development of the immersive circuit installed at the Casa de Cultura. The proposal consisted of the suspension of an idea of individual authorship: the installations work as scenes in theater plays in which we can identify performative acts and signatures, which, immediately, dissolve in the name of a scene in which the protagonism is shared, including the visitor-spectator-author. There is no inside nor outside, the mirrors build an in-between space, where everyone is invited, together with the city, to participate.

Our assumption is that it is impossible to revisit and fictionalize the history of any woman without considering the dimension of collective production and reproduction. Casa de Cultura Laura Alvim was a project that was built out of a shared belief about the need to create another world. The animated things, the reflections, the fragmented memories, the displaced furniture, and objectsfrom the house’s collection that make up various installations in the exhibit are guardians, food, and immersion devices for constructingother fictions. The exhibition invites us to rethink our perception of the world and inhabit the “also”, leaving aside the binarism and polarization that mark our contemporary world, and that we can build another society, in which cultural and artistic institutions have increasing centrality.

A EXPOSIÇÃO

Uncool Artist

A Uncool Artist promove oportunidades de circulação, criação de vínculos que se expandem além dela mesma e apoio coletivo na gestão e execução de projetos. Somos uma comunidade –– composta por artistas, curadores, críticos e outros profissionais experientes e generosos –– que, ao longo dos últimos doze anos, vem se instaurando como um lugar singular para que artistas possam mergulhar profundamente em suas práticas, encontrar oportunidades únicas para mostrar suas criações, apresentar seus projetos e construir uma existência artística sustentável.

Nosso objetivo é produzir conhecimento crítico e criativo que busca empoderar subjetividades, criar novas comunidades e transformar estruturas sociais para serem mais inclusivas, abraçando a diversidade humana.



Uncool Artist promotes opportunities for circulation, for the creation of bonds that expand beyond itself, and for collective support of the management and execution of projects. We are a community –– made up of experienced and generous artists, curators, critics, and other professionals –– which, over the last twelve years, has established itself as a unique place for artists to deep dive into their practices, find unique opportunities to show their creations, present their projects and build in a sustainable artistic existence.

Our goal is to produce critical and creative knowledge that empowers subjectivities, creates new communities, and transforms social structures into more inclusive, embracing human diversity.

Direção Artística
Carolina Paz

Texto Curatorial e Pesquisa
Ana Roman

Artistas
Danié Gomez-Ortigoza
Diogo Montes
Guto Nunes
Liene Bosquê
Marina Quintanilha
Mariana Battistelli
Valincy-Jean Patelli

Apoio 
Danielle Cukierman
Thais Ribeiro
Débora Rayel

Performer-vocal
Fernanda Baronne
Documentação
Patrícia Benevides
Revisão e Tradução
Vítor Correia