Como repensar as imagens?

Fotografar é musculatura. Do corpo que se esgueira, que desce, que fica na ponta do pé. Da mão que aperta vários botões (às vezes um só) e principalmente, da mente. A cada imagem criada, seja a mais rápida, cotidiana ou a mais planejada e elaborada de todas, nós ativamos nossas bagagens imagéticas. Tudo que vimos, gostamos, desgostamos está ali.

Anos de colonização, do sertão pobre, da idosa sorrindo com olhos brilhantes para a câmera, da mulher sensual, das prostitutas seminuas em grande contraste e as crianças saltando do rio. Tenho certeza que a cada exemplo lido você lembrou de alguma foto. Nosso HD cerebral está recheado de imagens despejadas sobre nós, por isso falamos tanto da importância de termos referências.

A gente tem discutido ferozmente a necessidade de renovar os olhares, de criar novas referências — será que são novas mesmo? — de construir narrativas visuais e possibilidades de existências mais diversas, respeitosas, sem a dor e violência das colonizações.

Mas como nos desfazer de referências que estão incrustadas em nós? Não há resposta pronta, nem simples. O que temos são dúvidas para compartilharmos e assim a gente pode pensar juntas/os/es para onde ir, para que lado empurrar e descobrir qual muro pode virar ponte.

A gente pode começar com a palavra “novo”. Tem uma série de produtoras/os/es de imagens não reconhecidas, ou reconhecidas tardiamente que já causavam tensões, que fugiam das narrativas mais hegemônicas e apresentavam contrapontos sobre diversos corpos e realidades. Enquanto digitava este texto lembrei de três que encontrei em longas pesquisas, mas que não ouvi em sala de aula: Bauer Sá, Arthur Jafa e Ming Smith.

Talvez um primeiro passo seja a pesquisa. Encontrar arquivos que nos foram negados, entender as ausências de imagens e buscar a história dos nossos.

Olhos de Xangô (Xangô’s Eyes), 2007–2009 — Bauer Sá nascido em Salvador (1950)
Olhos de Xangô (Xangô’s Eyes), 2007–2009 — Bauer Sá nascido em Salvador (1950)
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America Seen Through Stars and Stripes, New York City, NY’ (1976) — Ming Smith (Detroit, Michigan, EUA) primeira fotógrafa afro-americana a ter um trabalho adquirido pelo MOMA
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Single Pool Player, Pittsburg, PA, (August Wilson Series)’ (1991) © Jenkins Johnson Gallery

Mas a questão não é só produzir, é também olhar para as imagens criadas sobre nós que foram exotizadas, limitantes e que forjaram histórias únicas. O sertão só é realmente feito pela escassez? Da terra rachada e a família grande em frente a uma casa de pau a pique?

Por que encontramos fotos, pinturas e representações da parte branca da família até antes dos tataravós, mas quando se tem melanina na pele mal achamos até os bisavós?

O que fazer com as imagens colonizadas? Como olhar criticamente para o que foi produzido? O que fazer com este material? Como subvertê-lo? Podemos remontá-lo?

Frida Orupabo, artista norueguesa com descendência nigeriana, trabalha com arquivos de 1850 e como bonecas ela recria corpos, poses e cenas, provocando um mistério, dor e uma sedução que causam tensões poderosas. Ao recortar e associar outros pedaços de corpos, Orupabo insinua que aquela imagem é dinâmica, pode ser alterada e remontada da forma que for interessante para nós. Ela se apropria das imagens para criar uma outra narrativa e protagonismo ao tratar de questões raciais, relações familiares, gênero, sexualidade e violência. Uma pista, para que não fiquem só dúvidas.

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Frida Orupabo, colagem — https://fridaorupabo.com/

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Frida Orupabo, colagem — https://fridaorupabo.com/

Para deixar o jogo mais complexo: a gente batalha o tempo todo contra as “imagens roubadas”. — se você chegou aqui assumi que você concorda que não fotografamos a realidade e que #nofilter não faz sentido — Todos os dias perguntamos: quem tirou aquela foto? como? devolveu para quem foi fotografada/o/e? Pediu autorização? Atribuir a importância não está só no clique, mas na experiência e conexão estabelecida ali, no respeito em quem cria a foto conosco.

Caso o jogo aqui vire trocar referências, fique à vontade para mandar várias, principalmente as que ainda não foram citadas: as não heterossexuais, as queers, mais mulheres, mais homens pretos, as não ocidentais, as populares, as que dizem não ser arte. A diversidade é tanta que todo e qualquer discurso será um recorte, é bom lembrar disso.

É bom também lembrar que temos o privilégio de estar em 2021. Por mais que pareça terrível (sabemos que está) tem grupos e movimentos que abriram as janelas, portas e as vezes frestas para nós. Nos arquivos não encontrados, nas histórias contadas pelos mais velhos tem imagens e faz parte do nosso trabalho-desafio encontrá-las e decifrá-las. Elas nos dão exemplos de como diversificar as narrativas e disputar o poder.

Como os caracteres já se tornaram incontáveis, chego ao fim deste primeiro papo. A filosofia ocidental adora fazer perguntas e uma das boas coisas que aprendi com ela é que as perguntas certas são catalisadoras de profundos pensamentos e mudanças em diferentes níveis. Espero que uma das interrogações colocadas aqui te abra um caminho.

Até breve.

Originalmente publicado na Coluna Lambfoto, um canal do laboratório de fotografia da UFBA que promove o diálogo em torno do universo da fotografia e suas inventividades, articulando a produção de imagens contemporâneas com seus aspectos políticos, poéticos e educativos.

 

Uma resposta para “Como repensar as imagens?”

  1. Texto sensível e com importantes questionamentos. Parabéns, Gabi!

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