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Uncool Artist

Entrevista: Fabiana de Moraes fala sobre o ArtMaZone e outros projetos

Por Monica Rizzolli

A curadora independente Fabiana de Moraes fala sobre sua formação, seus projetos e sobre o ArtMaZone na entrevista exclusiva para o Atêlie Coletivo 2E1.

1. Quem é Fabiana de Moraes?

Eu me formei em jornalismo na UFRJ. Durante a graduação, desenvolvia os trabalhos buscando relacionar as temáticas sugeridas pelos professores com aspectos da arte. Ali na ECO, tive acesso a textos da história da arte brasileira, me interessei pelos neoconcretos (sob influência de Katia Maciel) e, junto com amigos, frequentava e realizava pesquisas na biblioteca e em uma sala que abrigava obras de Lygia Clark, no MAM do Rio. Minha monografia de final de curso teve como tema o texto de Foucault sobre o quadro As Meninas, de Velázquez. Após a graduação, em 1997, tive a oportunidade de passar um longo período em Paris. Trabalhei como jornalista freelance durante algum tempo e fiz um mestrado em Estética e Ciências da arte, na Sorbonne, sobre o desejo e a pintura, a partir das terias de Deleuze e de Lacan. Para ganhar dinheiro e me manter, trabalhei com restauro de peças antigas, aprendi a manusear as folhas de ouro e o processo de douramento. Após cinco anos em Paris, voltei ao Brasil, em 2002, e comecei a dar aulas de História da Arte, em universidades e em cursos particulares. O circuito artístico carioca fervilhava e eu comecei a trabalhar com jovens artistas, frequentando ateliês e desenvolvendo acompanhamentos críticos dos trabalhos. Também coordenei “Perspectivas para as Artes Visuais no século XXI”, um encontro internacional sobre arte no CCBB do Rio, em 2005, um programa de parceria entre aquela instituição e a universidade em que trabalhava (UFF). Depois, fui gerente de produção da primeira edição do Prêmio Marcatonio Vilaça da Funarte, em 2006. Passei a me interessar cada vez mais pelo acompanhamento de artistas emergentes, pelo discurso crítico e suas recorrências em propostas artísticas. Assim, comecei um doutorado na ECO/UFRJ, orientada por Katia Maciel, dentro da linha de pesquisa “Tecnologias da comunicação e estéticas”. Ao mesmo tempo, conheci meu marido, que é francês, e tomei a difícil decisão de voltar para Paris (agora para ficar, casar…). Defendi minha tese em 2010 e resolvi desenvolver projetos de curadoria em Paris, assumir essa mudança geográfica, mas preservando contatos, possibilidades e aberturas já estabelecidos graças à rede constituída no Brasil. Conheci Nina Sales, jovem curadora franco-brasileira, que me apresentou ao programa de pós-graduação no qual ministro cursos sobre arte brasileira e mestrado. Nina também me lançou o convite para desenvolver com ela a plataforma ArtMaZone para as Artes Visuais brasileiras. Hoje sou curadora associada ao projeto de Nina Sales e também atuo com meus projetos particulares.

2. Atualmente, você reside em Paris. Você observa diferenças significativas entre a cena artística francesa e brasileira? Quais?

Sim. Primeiramente, no que concerne ao próprio circuito de arte. O circuito francês é um mundo e seu modo de funcionamento distingue-se muito do brasileiro. A França é pioneira em políticas culturais que visam o fomento para as artes, é um país em que o mercado de arte é imponente e sólido, compreendendo uma cadeia de instâncias responsáveis pela circulação de obras de arte: do artista ao marchand, o galerista, os colecionadores, os grandes museus estatais e fundações privadas, as feiras e os leilões… Ao mesmo tempo, circuitos “periféricos”, paralelos ou transversais são responsáveis por uma abertura, que possibilitam intercâmbios, residências e as novas modalidades de produção e de exposição da arte. Eu me interesso particularmente por essas soluções independentes, os chamados artist run spaces (na França, adota-se o termo inglês), cuja gestão passa pelas mãos dos próprios artistas. No Brasil, essas soluções independentes são uma forte referência, hoje, mas o grande circuito, assim que o mercado, são menos complexos e estruturados que os franceses. No Brasil, vivemos um momento distinto, mas importante e decisivo, sobretudo em relação à organização da esfera artística – das estruturas que a compõem, de seus agentes, das estratégias de formação de público e do mercado de arte. Enfim, são dois países diferentes, com realidades muito distintas, mas que convergem em termos de uma produção artística bastante heterogênea, que dialoga com as propostas internacionais, em termos de investigações, experimentalismos, tecnologias…

3. Você desenvolve a pesquisa intitulada “Poéticas do traço – breve panorama do desenho contemporâneo no Brasil”. Por que o desenho?

Trata-se de um projeto que interroga as condições que tornam possível, hoje, o desenho como linguagem para a arte contemporânea, no Brasil. Na diversidade de linguagens e matérias que nutrem a produção artística nacional, encontramos um número significativo de artistas que servem-se do desenho para a concretização de suas propostas. Qual é o lugar (ou os lugares) do desenho, hoje? Que poéticas prevalecem e como se constroem, operam, determinando novos possíveis da expressão gráfica? Por enquanto, estou apresentando o projeto em editais. Selecionei cerca de trinta artistas, com os quais pretendo estabelecer diálogos sobre o desenho e suas relações com o “íntimo”. Penso o desenho como um gesto primeiro do artista, quando este busca representar, indicar, sugerir, transpor aquilo que acontece na ideia, essa instância disforme, irrepresentável e interna. A ideia é essa uma voz que nos habita; talvez o que haja de mais íntimo, próprio e autêntico, livre de filtragens e censuras, em cada um de nós. Este gesto, o desenho, inaugura um espaço do “íntimo”, da “intimidade”, onde corpo, o imaginário, a memória, os não-ditos, as loucuras e paixões são – ao mesmo tempo ou isoladamente – anunciados, lançados, depositados, inscritos, desvelados.

4. E o “Circuitos da desdobra”? Do que se trata?

Este projeto consiste em realizar um encontro nacional, inédito, para que se discuta o estado atual dos espaços independentes para as artes visuais, no Brasil – realidades e rumos. Para tanto, serão convidados a intervir no evento – que terá duração de dois dias e acontecerá no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica (Rio de Janeiro) – representantes/gestores de espaços independentes, orinundos de todas as regiões do país, assim que curadores, críticos e pesquisadores. Com o objetivo principal de promover o compartilhamento de modelos de gestão, estratégias expositivas e de produção, de comunicação, assim que pedagogias diversas referentes às artes visuais, o evento assumirá o caráter de fórum, aberto ao público. O projeto acaba de ser contemplado pelo edital Rede Nacional de Artes Visuais da Funarte e teremos mais notícias sobre sua execução em breve.

5. Você também é curadora do projeto ArtMaZone. Como surgiu a iniciativa?

ArtMaZone é um projeto concebido por Nina Sales, jovem curadora franco-brasileira, radicada em Paris. Conheci Nina há cerca de três anos e, naquela época, ela pensava em colocar em prática seu projeto: criar uma estrutura que permitisse dar visibilidade à arte brasileira, na França, trabalhar com artistas brasileiros, criar um espaço de informação, em língua francesa. Em janeiro deste ano (2013), aceitei a proposta de desenvolver a plataforma, enquanto curadora associada, e colaborei ao estabelecer a ponte entre a estrutura e artistas de minha rede pessoal, no Brasil, além de desenvolver o projeto nas redes sociais.

6. Como funciona o ArtMaZone?

A plataforma é gratuita para os artistas e sem fins lucrativos. Não exercemos nenhuma seleção curatorial no momento da admissão, a única exigência é que possuam uma linha investigativa e uma produção regular. Criamos perfis para cada um dos artistas, com informações biográficas, percurso profissional, imagens, vídeos e links diversos.

7. Para finalizar, quais os planos para o ArtMaZone?

A estrutura se mantém financeiramente graças ao projetos desenvolvidos pela curadoria (exposições, formação, consultoria…). Consideramos que o ano de 2013 é um momento de investimento, desenvolvimento de uma rede colaborativa, busca de financiamentos para alguns projetos, escritas e desenvolvimento do site que abriga a plataforma. A partir de 2014, se tudo correr bem, viveremos o período das realizações. A meta é conseguir trabalhar com artistas brasileiros, divulgando seus trabalhos na França. Mas também criamos uma seção da plataforma para artistas de outras nacionalidades que se encaixam em investigações curatoriais que desenvolvemos. Ou seja, o denominador comum sendo a arte atual, as possibilidades são infinitas.

Este conteúdo foi escrito por Monica Rizzoli publicado originalmente no 2e1.

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