Não se preocupe com o “cool”

Por Carolina Paz

Esta é de uma carta escrita em 1965 por Sol Lewitt, em resposta a Eva Hesse durante um período de dúvida e dificuldade da artista . A carta é atemporal. Continua sendo um dos melhores conselhos que alguém já deu para um artista em perigo, para superar bloqueio criativo, e, provavelmente é uma das cartas mais compartilhadas entre artistas americanos.

Texto da carta em inglês (se puder leia no texto original):

 

Dear Eva,
It will be almost a month since you wrote to me and you have possibly forgotten your state of mind (I doubt it though). You seem the same as always, and being you, hate every minute of it. Don’t! Learn to say “Fuck You” to the world once in a while. You have every right to. Just stop thinking, worrying, looking over your shoulder wondering, doubting, fearing, hurting, hoping for some easy way out, struggling, grasping, confusing, itchin, scratching, mumbling, bumbling, grumbling, humbling, stumbling, numbling, rumbling, gambling, tumbling, scumbling, scrambling, hitching, hatching, bitching, moaning, groaning, honing, boning, horse-shitting, hair-splitting, nit-picking, piss-trickling, nose sticking, ass-gouging, eyeball-poking, finger-pointing, alleyway-sneaking, long waiting, small stepping, evil-eyeing, back-scratching, searching, perching, besmirching, grinding, grinding, grinding away at yourself. Stop it and just DO!

From your description, and from what I know of your previous work and you [sic] ability; the work you are doing sounds very good “Drawing-clean-clear but crazy like machines, larger and bolder… real nonsense.” That sounds fine, wonderful – real nonsense. Do more. More nonsensical, more crazy, more machines, more breasts, penises, cunts, whatever – make them abound with nonsense. Try and tickle something inside you, your “weird humor.” You belong in the most secret part of you. Don’t worry about cool, make your own uncool. Make your own, your own world. If you fear, make it work for you – draw & paint your fear and anxiety. And stop worrying about big, deep things such as “to decide on a purpose and way of life, a consistant [sic] approach to even some impossible end or even an imagined end” You must practice being stupid, dumb, unthinking, empty. Then you will be able to DO!

I have much confidence in you and even though you are tormenting yourself, the work you do is very good. Try to do some BAD work – the worst you can think of and see what happens but mainly relax and let everything go to hell – you are not responsible for the world – you are only responsible for your work – so DO IT. And don’t think that your work has to conform to any preconceived form, idea or flavor. It can be anything you want it to be. But if life would be easier for you if you stopped working – then stop. Don’t punish yourself. However, I think that it is so deeply engrained in you that it would be easier to DO!

It seems I do understand your attitude somewhat, anyway, because I go through a similar process every so often. I have an “Agonizing Reappraisal” of my work and change everything as much as possible = and hate everything I’ve done, and try to do something entirely different and better. Maybe that kind of process is necessary to me, pushing me on and on. The feeling that I can do better than that shit I just did. Maybe you need your agony to accomplish what you do. And maybe it goads you on to do better. But it is very painful I know. It would be better if you had the confidence just to do the stuff and not even think about it. Can’t you leave the “world” and “ART” alone and also quit fondling your ego. I know that you (or anyone) can only work so much and the rest of the time you are left with your thoughts. But when you work or before your work you have to empty you [sic] mind and concentrate on what you are doing. After you do something it is done and that’s that. After a while you can see some are better than others but also you can see what direction you are going. I’m sure you know all that. You also must know that you don’t have to justify your work – not even to yourself. Well, you know I admire your work greatly and can’t understand why you are so bothered by it. But you can see the next ones and I can’t. You also must believe in your ability. I think you do. So try the most outrageous things you can – shock yourself. You have at your power the ability to do anything.

I would like to see your work and will have to be content to wait until Aug or Sept. I have seen photos of some of Tom’s new things at Lucy’s. They are impressive – especially the ones with the more rigorous form: the simpler ones. I guess he’ll send some more later on. Let me know how the shows are going and that kind of stuff.

My work had changed since you left and it is much better. I will be having a show May 4 -9 at the Daniels Gallery 17 E 64yh St (where Emmerich was), I wish you could be there. Much love to you both.
Sol

Texto da carta em português (tradução minha – tomei algumas liberdades):

 

Querida Eva,

Faz quase um mês desde que você me escreveu e você possivelmente esqueceu seu estado de espírito de então (mas eu duvido). Você parece a mesma de sempre, e sendo você, odeia cada minuto disso. Pare com isso! Aprenda a dizer “foda-se” para o mundo de vez em quando. Você tem todo o direito. Pare de pensar, de se preocupar, olhando para trás, imaginando, duvidando, temendo, se machucando, esperando alguma saída fácil, sofrendo, tentando entender, se confundindo, ruminando, se coçando, resmungando, se atrapalhando, se humilhando, tropeçando, se entorpecendo, cambaleando, procurando pelo em ovo, lutando contra si mesma, saindo de fininho, chocando, reclamando, gemendo, gemendo, choramingando, empacando, arrancando os cabelos, puxando saco, empinando o nariz, com dor de cotovelo, furando os olhos, colocando a culpa nos outros, saindo de fininho, esperando, andando na ponta dos pés, botando olho gordo, trocando favores, secando, falando mal dos outros, se manchando, rangendo, rangendo, rangendo os dentes para si mesma. Pare e apenas FAÇA!

Pela sua descrição e pelo que sei do seu trabalho anterior e da sua habilidade; o trabalho que você está fazendo parece ser muito bom “Desenho-limpo-claro, mas maluco como máquinas, maior e mais ousado… total nonsense.” Parece bom, maravilhoso esse “total nonsense”. Faça mais. Mais absurdas, mais loucas, mais máquinas, mais seios, pênis, bocetas, o que quer que seja – faça com que fiquem sem sentido. Tente fazer cócegas em algo dentro de você, use esse seu “humor estranho”. Você pertence à parte mais secreta de você mesma. Não se preocupe com o “cool”, faça o seu próprio “uncool”. Faça o seu próprio mundo. Se você tem medo, faça ele funcionar para você – desenhe e pinte seu medo e ansiedade. E pare de se preocupar com coisas grandes e profundas como “decidir sobre um propósito e modo de vida, uma abordagem consistente para algum fim impossível ou até mesmo um fim imaginado” Você deve praticar ser estúpida, burra, irrefletida, vazia. Então você será capaz de FAZER!

Eu tenho muita confiança em você e mesmo que você esteja se atormentando, o trabalho que você faz é muito bom. Tente fazer algum trabalho ruim – o pior que você pode pensar e veja o que acontece, mas principalmente relaxe e deixe tudo ir para o inferno – você não é responsável pelo mundo – você é apenas responsável pelo seu trabalho – então O FAÇA. E não pense que seu trabalho precisa estar de acordo com qualquer forma, ideia ou sabor preconcebido. Ele pode ser qualquer coisa que você queira que seja. Mas se achar que a vida vai ficar mais fácil se você parar de trabalhar – então pare. Não se castigue. No entanto, acho que essa prática é tão profundamente enraizada em você que seria mais fácil FAZER!

Eu entendo sua atitude um pouco, de qualquer maneira, porque eu passo por um processo similar de vez em quando. Eu tenho uma “Reavaliação Agonizante” do meu trabalho e mudo tudo o que for possível – e odeio tudo o que fiz, e tento fazer algo totalmente diferente e melhor. Talvez esse tipo de processo seja necessário para mim, me empurrando e me fazendo continuar. A sensação de que eu posso fazer melhor do que essa merda que acabei de fazer. Talvez você precise da sua agonia para realizar o que faz. E talvez isso incite você a fazer melhor. Mas é muito doloroso, eu sei. Seria melhor se você tivesse confiança apenas para fazer as coisas e não pensar nisso. Você não pode deixar o “mundo” e a “ARTE” em paz e parar de acariciar seu ego? Eu sei que você (como qualquer um) trabalha muito e que no resto do tempo fica sozinha com seus pensamentos. Mas e se quando você trabalha ou, antes de começar o trabalho, você tentasse esvaziar sua mente e se concentrasse no que está fazendo? Depois de fazer algo, ele está feito e é isso. Depois de um tempo você pode ver que alguns são melhores que outros, mas também você pode ver em que direção você está indo. Tenho certeza que você sabe disso. Você também deve saber que não precisa justificar seu trabalho – nem mesmo para si mesma. Bem, você sabe que eu admiro muito o seu trabalho e não consigo entender por que você está tão incomodada com isso. Mas você pode vê-los próximos e eu não. Acredite em sua habilidade. Eu acho que você acredita. Então, crie as coisas mais escandalosas que puder – choque-se. Você tem ao seu alcance a capacidade de fazer qualquer coisa.

Eu gostaria de ver seu trabalho mas devo me contentar em esperar até agosto ou setembro. Eu vi fotos de algumas das novas coisas de Tom na Lucy. Eles são impressionantes – especialmente aqueles com a forma mais rigorosa: os mais simples. Eu acho que ele vai mandar mais alguns depois. Deixe-me saber como as exposições estão indo e esse tipo de coisa.

Meu trabalho mudou desde que você saiu e está muito melhor. Eu estarei em uma mostra entre 4 e 9 de maio, na Daniels Gallery, na 17 E 64yh St (onde Emmerich estava), eu queria que você estivesse lá. Muito amor para vocês dois.

Sol

 

Imagem destacada: Cópia da carta de Sol publicada em  Letters of Note: An Eclectic Collection of Correspondence Deserving of a Wider Audience. Este livro contém a imagem de todas as páginas da carta assim como a transcrição e informações históricas sobre o documento. 

Este conteúdo foi publicado originalmente por Carolina Paz no  2e1.

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