Um encontro entre feminismo, surrealismo e ironia

Sempre me interessei por práticas artísticas que articulam o poético, o humor e a provocação. Pesquisando cada vez mais sobre artistas mulheres fui reconhecendo o uso da ironia como estratégia de questionamento da identidade feminina, das questões de gênero e das políticas sexuais. Aproveitando essa pesquisa, ao invés de focar na análise de apenas uma obra, dessa vez eu reuni alguns trabalhos da artista austríaca Birgit Jürgenssen (1949–2003) para pensarmos em um possível entrelaçamento entre o uso dos “novos meios”, do surrealismo e da ironia numa perspectiva de um contradiscurso da representação da “mulher” e do “feminino”.

Na década de 1960, com a segunda onda feminista, as questões de emancipação, igualdade de gênero e direitos civis passaram a fazer parte do discurso público – momento de inflexão na abordagem do corpo na história da arte, um  motivo central na obra de muitas artistas que, a partir desse período, confrontaram códigos culturais da tradição patriarcal na arte e na sociedade. Foi no final dessa década, inclusive, que pela primeira vez se utilizou a expressão “o pessoal é político”: a socialização de experiências permitiu às mulheres perceberem que seus problemas cotidianos tinham raízes sociais e que isso demandava uma transformação coletiva.

Want Out of Here!, 1976

Na década seguinte as artistas passaram a se apropriar dos chamados “novos meios” (fotografia, performance, vídeo e cinema), mais “livres” e espontâneos, em um movimento de liberação dos domínios masculinos tradicionais da pintura e escultura – o impacto feminista na arte da década de 70, inclusive, para Cornelia Butler (curadora norteamericana), se constitue como o movimento internacional mais influente desde a pós-guerra. 

Foi nesse período que Jürgenssen começou a usar a arte como crítica social. Principalmente a partir da fotografia, a artista trabalhou com questões enfocadas no corpo da mulher e sua transformação, desconstruindo conceitos culturalmente definidos de feminilidade. Nas obras que selecionei podemos observar algumas das principais temáticas abordadas nesse período:

No caso da maternidade, por exemplo, e nas idealizações que envolvem a iconografia desse processo biológico/psicológico/social, percebi o uso do ninho – que em Nest (1979) aparece próximo ao ventre da artista e, em um desenho de 1977, numa axila masculina – como uma metáfora irônica da maternidade entendida como destino único feminino.

Nest, 1979
Untlited, 1977

(Abro aqui um parêntese para falar que achei bem curioso encontrar uma fotografia de 1979 em que ela repete esse desenho da imagem acima em que esse bíceps passa a ser representado como um seio – uma imagem que lembra a pôster We Can Do It! que ganhou força nos anos 1970)

Untlited, 1979

Quando aborda a esfera doméstica Jürgenssen fala da condição de uma mulher que se confunde com os próprios objetos, ou melhor que, aprisionada ao lar é mais um dos objetos funcionais daquele espaço ao se fundir às próprias tarefas domésticas Housewives’ KItchen Apron (1975) – obra do mesmo ano de Semiotics of the Kitchen (1975) de Martha Rosler -, mas que quer, literalmente, sair dalí (Want Out of Here!, 1976). Uma referência também ao trabalho reprodutivo (observe o pão no forno).

Housewives’ KItchen Apron, 1975

Para concluir, a forma como Birgit trabalha com o cotidiano vai além da representação e o uso da ironia me parece entrelaçada à construção de uma ficção muito próxima de uma visualidade surrealista (alterações corporais, seres humano-animais, mulheres-objeto…). A partir do corpo a artista confronta mecanismos sociais de controle da condição feminina (que, inclusive, tensiona em alguns momentos com um certo fetichismo vinculado à feminilidade). Não me parece que encontraremos nas obras de Jürgenssen uma mulher passiva, objeto de contemplação.  

Untitled (Self with Little Fur), 1974/1977
Support (Improvisation), 1976

Imagem destacada: Untitled (Improvisation), 1976
Fonte das imagens: Estate Birgit Jurgenssen

 

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